queluz/barra mansa/queluz @ sat jan 24th, ’09

something i should have posted a long ago… actually, the event took place in january, 24th ’09. but only today i had the guts to end the text. hope you enjoy.

—>8 cut 8<—

Não entendi bem o porquê, mas olhando para o tópico em que se discutia o evento – Audax/Queluz -, me veio uma vontade de participar. É bem verdade que eu já estava me preparando mentalmente para o ano ciclístico que se iniciara. Para isso, contei com a ajuda de alguns vários capítulos da “Bíblia de Treinamento do Ciclista”. Afinal, pedalar meramente por pedalar ficou sem sentido – ficar em forma é um objetivo, verdade, mas não tem aquele apelo de superação ou de chegar cada vez mais longe, coisa que a bicicleta nos proporciona.

Eis então que olhei para o tópico com um certo carinho e: “está decidido!” Fiz um pequeno trabalho de convencimento e acabei arrastando mais um biruta para a aventura. Éramos mais dois nas “tristezas e alegrias” da rodovia dos tropeiros. Várias discussões sobre o evento, e os temas oscilavam entre ritmo, alimentação, equipamentos, acertos sobre a estada em Queluz, cidade da qual partiríamos para os temíveis 217 km.

Os dias se passavam e a menos de uma semana do sábado 24, acertou-se a estada. Pra você ver como as coisas são bem mais simples: basta um telefonema e voilá, reservas feitas. Zero burocracia. Ah se tudo fosse assim. Curioso foi a senhora que fez a reserva nem ter pedido meu telefone… Dias depois constataríamos que as instalações não eram assim algo lá requintado, mas por módicos 60 reais, o que esperar?

A sexta-feira chega, o dia de rumar para Queluz. Meu companheiro de viagem, embaço que só, se atrasa por conta de algumas pendências, e finda que saímos do Rio lá pelas quase 22h. Ainda bem que a viagem era pela Dutra, porque chuva o tempo todo, neblina na serra das Araras e faróis ofuscando o olho, tudo isso numa rodovia lixeira, seria no mínimo de matar. Paramos no posto Graal logo antes da divisa – e do pedágio – para esticar as pernas um pouco, trocar uma idéia, comprar água e afins. Uns 30 km e já estaríamos em Queluz.

A chegada foi meio esquisita, primeiro porque Queluz está cravada no meio da BR: cidade prum lado e pro outro e uma rodovia no meio. Outra foi que chegamos de madrugada – 1h30 mais ou menos – e viv’alma havia para nos recepcionar. Por sorte encontramos um senhor que vinha subindo uma das _várias_ ladeiras de paralelepípedos – assim, indagamos como fazer para chegar ao hotel Atenas. Uma meia dúzia de instruções, que de nada ajudam no final das contas, porque eu não consigo decorar uma seqüência de mais de 5 comandos confusos, e meu companheiro tem a brilhante idéia de ligar para a pousada. Enfim encontramos o lugar.

Divertido foi ver aqueles vários carros com suporte para bicicleta. Pela manhã viria de fato a surpresa, ao ver o corredor repleto de pessoas fantasiadas e seus bólidos multicoloridos. Apesar da surpresa, no fundo a sensação era a de um ambiente extremamente familiar – afinal de contas, a imagem de um homem “fardado”, calçando um sapato que não lhe permite andar direito e ostentando em sua cabeça uma espécie de elmo (o qual lhe confere um ar de saúva), não me era distante: quase todos os dias eu via um em casa, com seu andar, onomatopaico, – clop! clop! clop! clop! – tal qual pato.

A noite de sono foi demasiado curta: menos de duas horas e meia na cama. Felizmente o REM esteve presente e pude descansar de forma a acordar pronto para o que nos aguardava. Ao abrir a porta já se via no corredor o tal festival de fantasias e bicicletas. Todos alvoroçados pois a largada seria dada em questão de horas. Desci as escadas com a minha magrela prateada já meio preocupado com o céu que se desenhava lá fora: aquele cenário onde não se sabe muito bem onde termina a terra e onde começa o céu, fora um chuvisco teimoso, como dizem os patrícios, a típica chuva molha-tolos.

Mas isso era perfume. A cereja do bolo ainda nem havia sido tirada da compota. O café da manhã não seria servido no hotel em que ficamos e sim no Beira-Rio, nome auto-explicativo. Isso não seria um problema se: i) se o pavimento não fosse de paralelepípedos (ou como aprendi depois desses praticamente dois anos de bike – cobblestones); ii) se não estivesse chovendo; iii) se o trecho a ser percorrido não parecesse um sabão; e iv) se não estivéssemos de bicicleta. O primeiro desafio do Audax de Queluz foi uma rampinha muito da sua perigosa – dadas as condições acima – rumo a passarela para o outro lado da cidade. Mais divertido ainda foi a descida bizarríssima que devíamos encarar para chegar ao hotel (por conta da chuva que se anunciava a organização do evento mudou o lugar da largada, a qual seria dada em frente à Igreja da Martriz).

Tomei um café, que estava longe de ser aquele recomendado pelos autores do livro de ciclismo de longa distância. A bem da verdade, àquela altura do campeonato, já não fazia a menor diferença: falta ou excesso de preparo seriam comprovados na saga que estava por começar. O medo era o de ter um revertério no meio do evento, por conta do café fora da rotina. Suco de laranja e um misto frio, engolidos rapidamente, após ter feito a vistoria obrigatória. Aquele monte de saúvas coloridas, esperando o momento da partida.

Às 7h30min soaram as trombetas: alea jacta est, diria César. Eu, pastel, deixei para sincronizar o gps em cima da hora, mas nada que comprometesse de fato o desempenho – um minuto a mais ou menos nas mais de 11 horas que se estavam por vir pouca diferença fariam… Logo depois da _partenza_ vinha a primeira tristeza do dia: uma subida um tanto chatinha, mas já seletiva. Chuva e barro seriam nossos companheiros por várias horas: o que se viu naquele instante fora apenas um mero aperitivo. E nesse pequeno trecho já víamos alguns avariados: acho que não há coisa mais irritante do que pneu furado – principalmente quando se está num grupo.

Uns 5 km depois dessa subida, havia um trecho de barro com reminiscências de estrada – na realidade, uma encosta caíra zilênios atrás, e dado que a rodovia não tem expressão comercial, grandes são as chances de que ela esteja do mesmo jeito até hoje. super divertido encarar uma descida repleta de barro numa bicicleta cujos pneus têm menos de uma polegada de largura: o verdadeiro espírito do cross-country. Fora o fato de que a anoréxica já estava irreconhecível àquela altura. Tudo bem… a estrada seguia seu curso e íamos em um grupo de 5, numa velocidade razoável, e a coisa foi assim até o primeiro ponto de controle, uns 20 km depois de S. José do Barreiro: pausa para uma rápida confraternização, reposição de líquidos, e também descanso.

A “barrinha de ‘life'” do “bonequinho” começava a baixar – eu estava à caça daquelas maletas brancas com uma cruz vermelha estampada, mas sinceramente não encontrei nenhuma. Ao longo do caminho encontramos outros dois intrépidos, que foram nossos companheiros por vários quilômetros. Infelizmente minha pilha acabou antes da hora, e faltando uns 15 km para o ponto de retorno, já não conseguia mais acompanhá-los. Começava então a saga da _loneliness of the long distance cyclist_…

Em Barra Mansa nos reagrupamos mais uma vez – sendo que eu perdi a entrada do posto de gasolina e fui praticamente ao centro da cidade. Voltei e vendo rostos conhecidos ao longe, vi que realmente tinha passado lotado pelo segundo ponto de controle. Novamente, pausa, mas dessa vez a ordem era trocada: descanso, reposição de líquidos e social. Àquela altura já estávamos todos os participantes moídos – o perfil altimétrico me enganou por completo, por achar que as subidas de baixo gradiente não me minariam como o fizeram. Saímos então, e dado que o cansaço se abatera sobre esse que vos escreve, os outros três seguiram adiante. _Miles and miles and miles I rode… [alone]_ e na chuva… Em um determinado momento parei numa cidadela para tomar uma lata do _leite negro do capitalismo_, vulgarmente conhecido como coca-cola. Impressionante o poder que ela tem, praticamente levantando defuntos.

_The long and winding road_… O cenário era o de um _road movie_ com pitada de tropical: asfalto ladeado pela Serra da Bocaina. A luta era contra mim mesmo. A fadiga já me tomava por completo e eu pedalava por inércia: faltava força para fazer com que as engrenagens produzissem uma velocidade maior do que 25 km/h. Não bastasse, os joelhos doíam, assim como as assaduras começavam a se fazer presentes. Uma falência generalizada, praticamente. Eis que ao longe se vê um oásis. Seria real ou uma miragem? Era verdade: o terceiro ponto de controle se aproximava! Tive de concordar – a visão do PC é como um a de um oásis num deserto: algo extremamente reconfortante. Apeei, reencontrei os companheiros de empreitada, conversamos, descansamos um tanto, comemos… e como era necessária a partida, ainda que dura a dor do _parto_, não nos restava opção. Seguimos em dois, o biruta que topara tal empresa quando estávamos no Rio e eu.

Curiosamente, uma reserva de energia se apresentou e por alguns quilômetros vim puxando o duo. Meu parceiro dizia que lá pelos 170 km rodados sua “barrinha de life” havia se esgotado, mas ainda assim viemos num ritmo razoável. O astro-rei já dava sinais de que sairia de cena, o que tornava a paisagem ainda mais fantástica. Momento kodak perfeito, não fosse aquela descida agressiva se transformando numa subida trágica na volta. A rigor, ela nem era assim tão mortífera. O detalhe complicador era ter de encará-la depois de 190 km de dor e sofrimento. Fizemo-lo, parando no meio do caminho por alguns minutos. Cada curva que sumia ao horizonte trazia uma surpresa desagradável – diacho que nunca acabava. Pior que nem dava para fazer como dissera Pantani: _going faster makes the suffering end sooner_ – onde estava a força pra girar os pedais mais rápido??

Já não agüentava mais subidas… e ainda faltava a do barreiro cross-country, a qual fizemos desmontados. Depois de mais algumas subidas curtas e igualmente chatas, enfim a última descida – aquela subida lá do início, responsável pela primeira triagem do evento. A sensação de realização já invadia o que sobrara do corpo – afinal depois de 10 horas sofrendo, a única coisa que me ocorria era CHEGAR. E assim o fiz! Praticamente morto, esgotado, estropiado. Mas com um sorriso no rosto, e num estado de alegria que nem há como descrever. Certificado nas mãos, medalha no peito… quê mais? Fiquei ali sentado, curtindo o misto de catalepsia e cataplexia, acompanhando e parabenizando a chegada dos outros heróis.

Partimos para o hotel. O cansaço era absurdo, e após o banho a única coisa que fiz foi um _shutdown -h now_. Até que me acordaram e saímos para comer uma pizza. As dores não me deixariam esquecer o que se passara durante o dia – na realidade até hoje não esqueci quão bizarra foi aquela aventura. No restaurante, cada um comentava seus acertos, erros, dores e afins. No dia seguinte, café da manhã no outro hotel, bate-papo com o pessoal da organização – e a confissão de que aquele evento era um brevet de 300 km disfarçado de 200 km -, mais alegrias e dores compartilhadas, e a hora de voltar pra casa. Agora é esperar pela próxima.

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About rennrad

It's all about two wheels, being them bicycles or motorcycles.
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9 Responses to queluz/barra mansa/queluz @ sat jan 24th, ’09

  1. Será que já não nos cruzamos por aí? Além de motociclista sou (ou fui) ciclista – estourei meus dois joelhos, daí dei um tempo de pedaladas.

    Uma das coisas que já quase nasci fazendo, foi pedalar. A bicicleta sempre fez parte da minha vida. Sempre rodei de bike sozinha. Até que, um belo dia, resolvi catar na Internet uma lista de discussão, e ver se me juntava à um grupo para pedalar por aí vez ou outra. E encontrei a lista, e encontrei o grupo, e foi muito legal durante um tempo. Depois… cê nem imagina o que aconteceu (ou talvez até imagine)… mas voltei a pedalar sozinha, até porque comecei a sentir falta de ficar só comigo mesma e com minha bike.

    Quando rodo por aí, costumo cumprimentar os ciclistas por que passo com uma buzinadinha… acho que eles não entendem nada… rs. Será que já não passei por você por aí? :-)

    • rennrad says:

      olha… é bem provável que tenhamos sim nos esbarrado. apesar de a cidade ser grande, esses _acasos_ são bem constantes. dia esses vinha eu descendo o alto e meu na época vizinho vinha subindo de carro. só vim saber que era ele tempos depois, quando ele comentou que me vira. ah! quando vir um cara de capacete azul e cannondale cinza/prata, pode me parar que sou eu! =)

      falando de joelhos bichados, não sei se você acompanhou aí, mas também estou prejudicado. você não faz idéia da falta que fazem endorfina e serotonina. pra piorar, vetaram qualquer atividade nessas semanas que se seguem – por conta da fisioterapia. tô praticamente na fase do _deliriums tremens_ heheh…

      por falar em grupo… eu entrei em uma comunidade, achando que _a causa que nos une_ fosse suficiente para encontrar novas pessoas e tal. no entanto, foi o justo oposto. várias foram as tentativas de contato para que fizéssemos algumas rotas em conjunto, mas sempre evasivas. me cansei disso, preferindo continuar em minha saga solitária. como tinha comentado em sua página, melhor assim que aí ninguém se decepciona com ninguém… =)

  2. É… fiquei cansada só de ler… e viva a coca-cola!!! rsrsrsrs

  3. Claudia Daflon Coelho says:

    Te interessa papearmos mais, via MSN… talvez?
    Se sim: claudia_dc @ hotmail com
    Me deixa um recado para eu saber que é você, e aceitar quando da solicitação para adicionar :-)
    Bjks

  4. Recordar é viver, eu ontem sonhei com vc… rs

    • rennrad says:

      e já se vão cinco meses… – e eu continuo achando que você tinha uma boa noção do que queria, quando deixou seus contatos aqui… ;D

      • Da mesma maneira que você quando comentou no meu blog, foi, voltou… rs… deixei o contato, vc veio, e veio, e veio… e cá estamos nós emaranhados um no outro… :-D

      • rennrad says:

        eu já disse qual era a intenção inicial, mas você não acredita… tudo bem. agora eu tenho uma amiga com vários e interessantíssimos adicionais! :D heheh

  5. Continuo gostando desse relato, continuo me vendo nesse relato, foi por ele e pelo cara por trás dele que me apaixonei, e hoje sinto falta desse cara que inicialmente me procurou, e que hoje anda um tanto mudado, meio que displicente, ficando desinteressado talvez, as vezes me parece… sei lá… ou apenas sentindo falta de ficar um pouco sozinho, como eu também as vezes sinto falta… o que não é problema. Eu, pelo menos, estava muito acostumada a estar e ser sozinha e, muito ultimamente, tenho sentido um tanto falta de mim mesma… mas não deixo de sentir falta de ti. Me acostumei com um cara que me bipava quase que 24h/dia, e que de repente parou… É quase sempre assim: estou na minha, tranquila e calma… o cara vem, me cutuca, se faz presente na minha vida marcantemente, me acostumo e respondo à isso, o cara resolve que não quer mais isso, que cansou, sei-lá, e lá fico eu com cara de tacho, sem nada entender, e ainda por cima fazendo papel de chata, quando não de idiota. Mas, tudo são ajustes, não é… para lá e para cá… No que vai dar? Não sei.

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