e ontem…

após esperar o temporal passar, pus a roupa de chuva – por via das dúvidas – e me dirigi até minha montaria. lá estava minha mamona/azeitona linda como o de costume (fato curioso: eu dou nome para algumas coisas que tenho, mas não tenho o costume de me referir a elas pelo nome… foi assim com minha guitarra Emerald, é assim com meu baixo Mitternacht). em qualquer lugar – e aqui não poderia ser diferente – a chuva faz com que a dinâmica mude por completo, em particular a do trânsito. houve gente que levou umas boas 2h pra cruzar um trecho de menos de 2,5 km… se de moto já era uma meleca, imagina de carro – e nessas horas eu sinto saudade da bicicleta, porque melhor coisa para trafegar pelo corredor formado não há!

vida que segue e percurso sem intercorrências… corredor aqui e ali, e quando chego a uma rua paralela àquela em que moro, já vejo o que me espera: estávamos sem luz. excelente, pra não dizer o contrário. como essas roupas de chuva não são respiráveis, chego meio ensopado, querendo me livrar o mais rápido dos trajes. subo as escadas com a luz do telefone iluminando muito mal os degraus, me desfaço de minha “armadura” e: “legal… não tem PN pra fazer, porque não tem luz.” é impressionante o quanto nos tornamos dependentes de energia elétrica. desço pra comprar umas coisas pra casa, pois o dia seguinte seria de faxina, mas dou com a cara na porta, uma vez que fecharam o mercado mais cedo, o que me soou extremamente razoável. felizes os trabalhadores de lá, que puderam chegar mais cedo à suas casas – ou não, dado o trânsito intenso que se verificava em algumas vias importantes da cidade.

quando caminhava até o mercado, vi um camarada numa dobrável – dahon provavelmente – pedalando tranqüilamente pela rua, iluminando-a com seu farolete no guidão… no que volto de minha tentativa frustrada de comprar coisas – entre elas um pote de häagen dazs, porque poucas coisas se comparam ao prazer que um pote de chocolate & cookies pode trazer -, vejo nosso amigo ciclista no sentido oposto. me enchi de inveja e, como já havia prometido no dia retrasado que no dia seguinte eu daria um rolé, fi-lo ontem. subi as escadas no breu desfeito pelo “ledzinho” safado dos faroletes knog, e chegando a casa, comecei os preparativos…

– chave de boca
– câmara de ar
– bomba
– canivete de ferramentas
– carteira

tudo isso na mochila que usaria para trazer a comida dos gatos. roda dianteira devidamente fixada no garfo, farolete adicional preso no guidão, sapatilhas nos pés, luvas nas mãos, capacete no coco e vamo que vamo! “hit the road, jack!”, como cantam os caras do public enemy. primeiro problema surgiu no momento em que tive de cruzar paralela à rua em que moro: sem sinais para parar o trânsito, ficava bastante complicado atravessá-la de bike. segui no fluxo até conseguir uma brecha. “retorno” feito, pego a devida rua e tome borracha queimando asfalto! depois de descobrir como algumas coisas funcionam no mundo das duas rodas, sempre me pego a comprová-las… uma delas é o tal do contra-esterço. na primeira ocasião em que fiz esse percurso casa-veterinário-casa, a Celeste (minha single speed/fixed gear) estava com uma roda bem leve na dianteira, então o efeito, embora perceptível, acabava sendo anulado pelo pouco efeito giroscópico e pelo baixo momento de inércia que a roda oferecia. já com a roda original – mais de 2 kg espalhados entre aro, raios, fita e câmara -, isso ficou bem mais evidente… como dizia house, o personagem de hugh laurie, no episódio em que ele trata um ilusionista: “the wonder is in knowing”.

física de lado, é sempre intrigante o nível de interação que você tem com o meio, quando anda de bicicleta. as duas rodas de uma moto proporcionam um envolvimento _parecido_, mas no fim a experiência é diferente por duas coisas: i) o som do motor (porque _barulho_ faz a *sua* moto, não a minha), e; ii) a adrenalina em virtude da velocidade no simples “twist of the wrist” (trocadilho intencional em relação ao livro do ianque keith code). esses dois ingredientes, pelo menos para mim, mudam a relação homem-meio-máquina por completo, ainda que estejamos em duas rodas e ambos os casos experimentemos a sensação de liberdade e tenhamos de volta a responsabilidade por todas as decisões que tomamos enquanto atrás do guidão (digo isso porque em um carro, parece que abdicamos dessa tal responsabilidade, depositando-a em mãos de terceiros, como se a simples existência de uma “célula de sobrevivência” nos tornasse indestrutíveis ou imbatíveis). ao cruzar um sinal vermelho – podem me chamar de red light jumper porque eu sei que não deveria, mas aqui o “dois pesos, duas medidas” é uma questão de sobrevivência, posto que motoristas não respeitam bicicletas -, bradei “olha a bikêêê!!” e recebi uma buzinada de “ciente” em resposta.

o pedal continou tranqüilo até que em um determinado momento um motorista de ônibus – outra categoria conhecida por respeitar e muito os outros motoristas, pra não dizer o oposto – se aproximou. nessas ocasiões, eu adoto uma postura um pouco mais agressiva que o usual em relação ao posicionamento na faixa. em situações normais, busco ocupar a “marca” feita pelas rodas direitas dos carros, mais ou menos o meio do primeiro terço da pista. mas no caso, ocupo o exato meio da pista, para forçar o veículo a me ultrapassar ocupando por completo a faixa ao lado: é uma questão de sobrevivência. naturalmente o motorista não gostou. depois que me cortou usando a segunda faixa, ensaiou me fechar, mas logo adiante havia uma curva leve à esquerda e acabou desistindo – fora que o espaço entre mim e o baú era bem razoável então poucas seriam as chances de alguma conseqüência mais séria…

descontada essa chateação usual de quem anda de camelo no trânsito, a viagem continuou, até que cheguei à loja. fiz lá minha compra, passando logo a seguir pela loja de conveniência, para beber alguma coisa. comprei meu mate, e no que saio sou logo abordado por um camarada que degustava sua cerveja. comentava ele que queria se desfazer de sua khs. disse-me que desistiu do esporte porque para praticá-lo faz-se necessária uma grande disciplina – e isso é verdade: rotina é crucial nesse processo. nisso, chega um amigo dele e ele comenta mais uma vez o caso da venda e da disciplina. descubro que o sujeito que lhe vendeu a bicicleta era meu vizinho, na época em que morava em um outro bairro – (será que a teoria dos seis degraus de separação vale?) – e hoje pela manhã comentava comigo mesmo como esse mundo é pequeno, embora haja uma causa comum que torne as coisas bem mais viáveis…

despedi-me e logo ao sair, um frentista me aborda. e tal como o outro que desistira da disciplina, também elogia minha magrela, e aponta para a dele, que estava parada logo adiante. fui lá conferir e lembrei-me de minha saudosa sprint 16, vendida ao amigo sierra november. pensei também que se nos pusessem lado a lado, eu levaria bonito na cabeça, dado esses vários meses de inatividade.

enfim saí e mais adiante um sinal vermelho – esse não é passível de ser furado. parado estava um desses guris que limpa seu pára-brisa sem você pedir. mais um elogio à bicicleta, que definitivamente chama muito mais a atenção do que minha roadie regular. a coisa é sempre aquela:

– ela deve voar né?
– tudo depende do motor! :D

volto pra casa sem problemas e torcendo para que a companhia elétrica já tivesse restabelecido o serviço… qual nada. camelo no ombro e vamos degraus acima. bem… só me resta dizer que o saldo foi bem positivo, e que andar de bicicleta é muito bom. me apoderando indevidamente de um certo título, só andando você consegue entender the loneliness of the long distance runner.

About rennrad

It's all about two wheels, being them bicycles or motorcycles.
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One Response to e ontem…

  1. Claudia Daflon Coelho says:

    Minha gostosura… como gosto de “te ler”… :D

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