olhos de madeira

ontem (hoje já é 16.12) eu li um texto bem interessante sobre mudança de cidades. deixei como comentário o que segue abaixo:

um colega aqui comentou sobre sp (aka gotham city): cidade que recebe todo mundo, mas não acolhe ninguém. depois de ter passado quase 12 anos no rio (após 28 anos vivendo em minha cidade natal – bsb), sinto que esse dizer também se aplica àquela cidade. amigo de boteco é fácil de arrumar. em qualquer lugar, na verdade. hoje, na minha segunda mudança, percebo que a cidade mais funciona como um arcabouço, e a rotina é culpada por isso. ter um trabalho no esquema 9-18 faz com que o lugar onde se vive só seja efetivamente conhecido quando da vinda de gente de fora, dado que você vai servir de cicerone.

lendo o texto acima, só me resta concordar com o que está escrito, porque a coisa se dá exatamente dessa forma. quem é deixado pra trás fica preso numa realidade a qual você já não pertence mais, daí o estranhamento, o batimento. às vezes acontece um resgate de sintonia, talvez porque esse amigo que ficou também se sinta “misfit”, mas isso é fato raro. revisitar sua cidade traz uma série de lembranças e vários adjetivos para qualificá-las: tudo (ou quase) volta – a forma com que percebíamos coisas como clima, cheiro, vegetação, arquitetura, ruas (e a peculiar ausência de esquinas em brasília), da mesma forma que traz à mente o fato de que você não mais pertence àquela dinâmica. curioso é que a cidade que me abriga também não me pertence, e aí eu me torno uma espécie de “apátrida” (nessas horas eu sempre me lembro dos titãs – “não sou brasileiro / não sou estrangeiro…”).

a despeito do “desencaixe”, isso faz com que você observe as coisas de uma maneira completamente diferente, e isso é positivo, por te munir de ferramentas como distanciamento e estranhamento.

eis que isso também remete a uma resposta que dei a um amigo, quando ele me perguntou como estavam as coisas por aqui:

eu ainda apareço no rio, mas agora é naquele esquema en passant. preciso buscar minha moto e meus gatos até meados da 1a. semana do mês que vem, preferencialmente.

e sobre estar adaptado a gotham… é aquela coisa: não que o paulistano seja diferente do carioca, no que concerne essa coisa de achar que sua cidade é a mais top fucking mega blaster do universo – ambos acham isso e não abrem mão. boa parte do meu “problema” com rio reside na sensação, que pode ser falsa mas nada me mostrou o contrário, de que aí essa parada de lei de gerson é mais intensa.

outra foi o fato de eu ter de fazer deslocamentos longos para caçar o mesmo tipo de diversão que eu tinha quando morava no “quadradinho no goiás”. longe de dizer que o sistema de transporte coletivo daquela cidade é a melhor coisa do universo – nunca será -, mas o fato de eu estar no cine bsb em menos de 15 min, seja do fim da asa sul, seja do sudoeste, que foi onde passei a morar depois que meu velho foi pra reserva, é algo inominável. pra eu ir de casa ao cine “cult” mais próximo (barra point) era tarefa para pelo menos 25-30 min. fosse essa saída para o falecido (?) espaço unibanco @ botafogo, 1h no mínimo, fora o inferno que é pra se arrumar lugar pra estacionar por ali. tudo isso dificultou minha vida.

um terceiro aspecto é essa pretensa (e lembre que são generalizações: não tome isso como pessoal) hospitalidade e receptividade do habitante local: baita colóquio flácido para acalentar bovino. falava com o gordo (e seu andar amebóide, com pseudópodos) sobre isso e ele concordou com o caso: arrumar amigo pra ir pra rock, pro futebol e pra cerveja é mole (na verdade em qualquer canto isso é fácil). mas na hora do perrengue não fica um fdp pra te dar uma moral.

e voltando ao tópico gotham: eu procurei facilitar minha vida aqui, morando a menos de 2 km do trabalho e de uma estação de trem. no sábado passado eu saí para encontrar uma amiga num prédio perto do centro da cidade. foi pegar o trem na est. morumbi, baldeação na est. república para o metrô e descer na seguinte (anhangabaú – ok que as imediações do an*baú são horrorosas, mas isso é um capítulo à parte). easy peasy (aliás, tanto “easy .*” que nem vou trazer meu carro pra cá) . assim eu venho a pé para a lida. o fato de namorar uma menina da cidade também facilita um bocado o caso. e não lembro se cheguei a comentar, mas tenho parentes por parte de pai aqui. alguns reapareceram depois de muito tempo sumidos, e do nada resolveram voltar pro limbo – pessoas são esquisitas: ponto.

mas pra não dizer que eu sou 100% má vontade em relação ao rio, é claro que admito que há coisas a se fazer na cidade, sejam os “off-beaten tracks” ou os lugares manjados e repletos de turistas. o que atenuou um bom bocado minha impedância em relação ao rio foi ter começado a andar de bicicleta pra cima e pra baixo. só lamento que nenhuma das pessoas com quem topei, por conta da bicicleta, se firmou como uma amizade de fato. de qualquer forma, isso agora é história. :)

então é isso. eu diria que no geral a experiência está sendo positiva. novo lugar, nova vida, nova rotina, nova namorada, e naturalmente novos problemas. heheh

voltando ao tema inicial, o mais curioso é que essa sensação de desencaixe rola quando se sai de casa. você volta e:

  • é tratado como visita
  • seu quarto não é mais seu
  • você sabe onde tudo está ou como se dá a dinâmica da casa, mas não mais faz parte daquele cenário.

(me veio à memória uma situação ocorrida quando de uma visita que fiz ao meu pai, e nessa ocasião ele começou a discutir com minha irmã, por conta de um motivo pra lá de banal. eu ria por dentro, e me sentia super feliz com a mera posição de observador: não pertencer àquela discussão inócua era no mínimo regozijador.)

nota: o título da postagem é roubado do livro (homônimo) de um historiador italiano (carlo ginzburg), adepto da micro-história. são vários ensaios sobre estranhamento e distanciamento, e como utilizar isso para analisar fatos históricos. a leitura do livro é extremamente complicada, porque são vários ensaios não necessariamente encadeados – e por serem ensaios, há pouca preocupação com “didática”, ou uma preparação de terreno para os leitores: é tapa na orea o tempo todo.

 

 

 

 

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It's all about two wheels, being them bicycles or motorcycles.
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