modulations – cinema for the ear (ou listas descompromissadas #3)

1999. naquele ano orbital, crystal method (e aqui eu tenho de dizer que rolou uma era geológica até que eu sacasse que o nome da banda se referia à droga metanfetamina – valeu, breaking bad! se não fossem vocês, eu teria continuado na escuridão!) e darren emerson (dj do grupo underworld) desciam a serra para a edição do free jazz festival daquele ano. (pergunta: você não acha curioso que um festival que traz jazz em seu nome tenha uma seção com música eletrônica? hoje em dia o mesmo se passa com o rock in rio – na verdade acho que com esse o problema consegue ser ainda maior, dado que o festival chegou a mudar de casa, tendo passado umas temporadas em lisboa! oi?)

underworld lançava beaucoup fish, enquanto orbital jogava nas pistas the middle of nowhere. moby havia lançado play (esse último e o primeiro cds passaram a fazer parte de minha pequena coleção somente alguns anos depois, ao passo que descolei o the middle of nowhere tão logo tivesse voltado da apresentação da dupla no free jazz). lembro-me de ter comentado com os amigos que acabavam de aumentar o círculo de amizades sobre um álbum do moby, lançado anos antes (agora o nome do disco me foge, mas tenho pra mim que era i like to score) e eles foram uníssonos: “poperô total! larga mão!” (lembra-se da expressão na postagem anterior?) é… não rolou! heheh :D

uworld-beaucoup220px-Orbitalmiddle220px-Moby_play

voltando ao free jazz… esse povo e eu decidimos ir até gotham city para conferir o festival. 14 horas de ônibus depois e lá estávamos. aqui eu faço uma pausa para relatar algumas sensações curiosas:

  • a de familiaridade com a cidade. pode ser um troço totalmente nada a ver, mas acontecia. talvez isso se explique pelo fato de que eu tenha parentes morando lá, e tê-los visitado em outras ocasiões tenha me causado isso.
  • o fato de gostar de andar de metrô. isso me leva a uma reflexão do tipo “metrô é sinônimo de progresso/modernidade” – mesma reflexão que faço quando olho para vias elevadas e pontes. é verdade que elas enfeiam o que está embaixo e e também a vizinhança, mas não deixam de ter, para mim, esse aspecto.

a saída se deu numa sexta às 18h, com chegada no dia seguinte, às 8h. viagem tranquila, sem maiores problemas (viagem que fiz recentemente, de moto). sábado para roletar no centro, pça da república, largo do arouche, galeria do rock… programa típico de quem gosta de música e toma gotham como meca da parada. (essa coisa de gotham ser a “meca da parada” tem raízes históricas, mas um aspecto interessante pode ser conferido nesse vídeo.)

show no jóquei, bacana, gente pra caramba, pulos a torto e a direito, cansaço, táxi pra volta, domingo na liberdade com direito a yakisoba, tietê, ônibus, roncos, rodoferroviária, táxi pra casa. fim. :P foi um fim de semana bem interessante, e essa foi a 1a vez que saí do quadradinho (aka BSB) para assistir a uma apresentação em outra cidade. (a segunda ocasião[1] vai acontecer em maio de 2002, quando do festival eletrônika, em bh – curiosamente, com o mesmo grupo da ocasião anterior, a menos do electron shaper. (pfff… haha!))

tá ok… onde é que o documentário que dá nome à postagem entra como tema? agora! em 1998 uma cineasta/documentarista brasileira (para minha surpresa, pois não havia visto nada sobre a produção) iara lee lança modulations – cinema for the ear. o documentário faz um breve apanhado histórico da música eletrônica, trazendo nomes conhecidos como photek, carl cox, squarepusher, afrika bambaataa, don scott, ed rush, future sound of london, autechre, ltj bukemrobert moog, talvin singh, john cage[2], karlheinz stockhauser, sendo esses dois últimos figuras extremamente importantes na música eletrônica (vide esse infográfico – que daria um excelente quadro, diga-se de passagem). aparece também leon theremin executando um dos instrumentos mais curiosos da face da terra: o theremin. em uma apresentação de música eletroacústica no teatro nacional – aliás, acho que todos deveriam ver pelo menos uma vez na vida uma apresentação de música eletroacústica: tão esquisito um concerto para fita magnética e orquestra! – eu vi um concerto para theremin e orquestra. imaginem que insólito o músico tirando som do instrumento sem tocar nele. coisa do demo! o_O (nah… a física explica: é um circuito LC, como o que aparece no infográfico do endereço acima.)

eu fui ao teatro para ver várias obras do gênero. devo confessar que foi um choque. desconcertante é um dos adjetivos que a gente poderia usar para o evento. entretanto as duas versões que seguem (crazy [gnarls barkley] e something about us [daft punk]) mostram claramente que o choque que o theremin na música eletroacústica propicia pode se tornar uma experiência muito divertida, ou pelo menos curiosa.

em um trecho do documentário comenta-se sobre o surgimento do drum ‘n bass: ele teria sido uma espécie de resposta britânica ao hip-hop ianque. o legal é que esse fato me traz à mente duas coisas

  • de fato uma batida tradicional de hip-hop pode evoluir para um drum n’ bass/jungle/liquid sem muitas complicações, e;
  • consigo ver uma relação entre o drum n’ bass e o samba, como ficou evidente na releitura de cotidiano (repare a 2a estrofe da letra).

um ponto baixo do filme é a entrevista do duo fsol, a começar pelo fato de que os caras parecem ser gagos de idéias (há dois tipos de gagos: o de palavras, que são aqueles com que estamos acostumados, e os de idéias – esses não conseguem elaborar um raciocínio e dar continuidade nele, e aí a conversa fica truncada e lacônica), e isso atrapalha por completo o processo. pra completar, no meio da entrevista um deles se enche de raiva e fala:

you are not understanding!…

(call disconnected…)

velho… se o conceito é complexo e o receptor aparenta não estar entendendo, ou o referente é desconhecido do mesmo, ou o emissor se utiliza de vocabulário rebuscado, truncando por conseguinte a mensagem ou as duas coisas. resta então a quem está explicando um maior cuidado para que sua platéia não fique a ver navios, e não essa atitude meio… pueril.

e quando rola essa discussão ontológica sobre o drum n’ bass, também me vem à cabeça uma observação sobre as distinções entre o que se produz nos eeuu e o que vem da europa. enquanto o material ianque costuma ter um fortíssimo apelo comercial, o que rola na europa parece prescindir disso, como se essa busca pelo vendável fosse algo secundário. a título de comparação: a nwobhm vs glam rock – que fique claro: não há anacronismo, posto que o glam veio logo após a nwobhm, e sinceramente, mil vezes a new wave, porque ninguém merece aqueles cabelos de poodle como os dos caras do twisted sister (porra mano… todos eles usavam essa parada assim! van halen, poison, mötley crue, whitesnake, bon jovi, e até mesmo os caras do pantera – vide fotos da época do cemetery gates! que derrota!). ah, os anos 80… vergonha alheia.

voltando… tomemos por exemplo os caras do kraftwerk: autobahn, trans-europa express[3] e radio-aktivität[3] por exemplo são discos que em hipótese alguma podem ser chamados de comerciais (claro que hoje o grupo é tremendamente famoso, mas Morgenspazierengang jamais poderá ser considerada uma música comercial).

fato: documentários sobre música são sempre interessantes. esse é mais um deles, o qual merece maior atenção – a qualidade do vídeo não ajudou muito, porque provavelmente foi “ripado” de vhs -, tanto que estou a fim de arrumar uma mídia pra mim. (o nome até consta no catálogo do netflix, mas por alguma razão mística essa meleca só aparece lá fora…)

notas:
[1]: mogwai iniciou a noite, e até então eles haviam lançado os seguintes discos: ten rapid (coletânea), young team, 4 satin (a versão britânica traz quiet stereo dee, que eu acho mais legal do que stereo dee), o felicíssimo (#sqn) come on die young, e o rock action – lembro-me de ter desgostado profundamente desse disco quando de seu lançamento, mas mudei completamente de opinião após ver a banda tocando as faixas ao vivo (dial: revenge – super bonita – é cantada em gaélico, e close encounters foi usada como trilha sonora em um dos episódios de sex and the city, quando carrie e aidan terminam). depois veio olaf hund, fazendo música no estilo deep house – mandou benzaço, diga-se -, enquanto uma moça (sua irmã?) ficava nas estripulias com sua corda indiana. por fim tocou o kid loco, mas aí ninguém se interessou e ficamos do lado de fora conversando. vale a pena mencionar o fato de que nas duas apresentações que vi dos caras do mogwai, eles terminaram da mesma maneira: uma zoada infinda e alta pra cacete no tablado, com os instrumentos “se tocando”, e os membros da banda saindo de cena, até que alguns minutos depois a mesa corta a energia do palco e fim. oi? bacana foi o testemunho de uma moça, totalmente extasiada, falando com seu companheiro de evento: “não preciso de mais nada hoje! :D :D” pra mim o ápice da apresentação foi quando tocaram new paths to helicon p. i – velho… WTF was that?!?!?! o_O lindo! de chorar, sem sacanagem!
[2]: 4’33”, de john cage. deixe sua opinião após ver a peça. para você: ela é música? ;)
[3]: stick to the originals – ou seja, ouça as faixas em alemão, já que há versões em inglês para esses discos. mil vezes ouvir (Spiegelsaal)

Sogar die grössten Stars
Leben ihr Leben im Spiegelglas

do que a sonolenta versão no idioma bretão.

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